A dialética do olhar feminino - Ivan Teixeira

domingo, 21 de junho de 2009


Estou estudando Interpretação Textual,nesse momento, e ao ler e interpretar um texto de Ivan Teixeira me senti impelida a postá-lo aqui, o assunto é de interesse de muitos e a forma como Ivan [/olha a intimidade hauhauha] escreveu incentiva a leitura, mesmo àqueles que fogem de textos. =)

Espero que saboreiem a leitura [/ :D]:


A dialética do olhar feminino


Por Ivan Teixeira


Sempre pensei gostar de Machado de Assis. Hoje compreendo que só consegui amá-lo depois dos trinta. Como apreciar um artista desse porte sem antes passar por experiências que só a idade nos traz? Porém, se adquirir condições de entendê-lo foi para mim motivo de grande vaidade e júbilo, não deixou de ser também um tormento contínuo e corrosivo. Com ele apanhei o hábito de investigar as pessoas antes de aceitá-las. A sua mania de dissecar os gestos para entender a alma contaminou para sempre o ritmo de minha percepção. Assim se deu com o olhar das pessoas. De tanto lê-lo e interpretá-lo, acabei tornando-me num exímio leitor de olhares. Isso é bom, porque faculta o íntimo das pessoas a preço módico, mas afastou de mim muitas namoradas e duas noivas.

Durante o beijo, acostumei-me a abrir bem os olhos, espiando a expressão, examinando o brilho que porventura tinham os olhos ou a extensão de seus volteios. Isso revelava-me sempre um bom motivo para que eu me distanciasse das mulheres que beijava. Conclui muitas coisas: uma não me amava, porque seus olhos se tornavam mortiços; outra era luxuriosa em excesso, por causa de chispas de lascívia; uma terceira desgostou-me por demasia de sentimentalismo, pois chorava em seguida. Nenhuma, porém, foi tão expressiva como Teresa. Após o beijo, mirei bem nos seus olhos: lá estava a felicidade da ganância, porque o beijo fora duradouro e ela sabia da minha fortuna. Julgou decerto que o beijo fosse uma ponte para o casamento. Que olhar revelador! Exalava o exato calculismo da felicidade casamenteira. As pupilas saltavam de tanto brilho e ambição. Examinei-as bem e invoquei a perícia do meu mestre em decifração de olhares. Efetivamente, estava tudo ali: Teresa era interesseira. A luminosidade segura de seu olhar indicava o êxtase de quem tira a sorte grande. O seu impulso julgava-me uma presa indefesa, o que certamente a desarmou para a hipótese de eu ser um aprendiz na decifração do olhar. Mas a vida tem dessas coisas. Desprezei as evidências do olhar e casei-me com Teresa. Hoje, amargo minha incúria de mal discípulo: ela me domina, possui minha fortuna e , o que é pior, cortou pela metade minha experiência com os olhares femininos.



=) Mesmo que percebamos as intenções do outro, às vezes optamos por ignorar e viver o romance. hauhauahua



"E quem um dia irá dizer que não existe razão pras coisas feiats pelo coração? E quem irá dizer que existe razão?" [Legião Urbana - Eduardo e Mônica]

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